
O encontro que colocou a gestão condominial no centro do debate nacional
O setor condominial brasileiro tem passado por transformações aceleradas nos últimos anos, e eventos como o Encontro Nacional de Condomínios (Enacon), promovido pelo Secovi-SP, são termômetros precisos dessas mudanças. A edição mais recente do evento reuniu síndicos, administradoras, especialistas jurídicos e gestores para discutir algo que vai muito além de taxas e manutenções: o futuro do viver em condomínios.
A pauta foi ampla e transversal. Temas como o Custo Brasil e a insegurança jurídica abriram os debates, sinalizando que a gestão condominial já não pode ser encarada apenas como uma atividade operacional. Ela é, cada vez mais, um vetor de conexões humanas, decisões estratégicas e impacto econômico direto na vida de milhões de brasileiros.
O que esse debate revela para síndicos e administradoras? Muito mais do que parece à primeira vista.
O que é o Enacon e por que ele importa para o seu condomínio
O Enacon é o maior encontro nacional voltado ao universo condominial do país, organizado pelo Secovi-SP, entidade que representa o setor imobiliário paulista há décadas. O evento reúne anualmente profissionais de ponta para debater tendências, boas práticas, legislação e inovação aplicada à gestão de condomínios.
Participar desse debate, mesmo que indiretamente, é fundamental para qualquer síndico ou administradora que queira se manter competitivo e preparado para os desafios que vêm por aí. Afinal, as discussões travadas nesses fóruns costumam antecipar mudanças regulatórias, tendências de mercado e novas demandas dos moradores.
Temas transversais: o que isso significa na prática
Quando falamos em “temas transversais” na gestão condominial, estamos nos referindo a assuntos que atravessam diferentes áreas ao mesmo tempo: o jurídico, o financeiro, o humano e o tecnológico.
Alguns exemplos de temas transversais que ganharam destaque no Enacon:
- Custo Brasil e seu impacto direto na taxa condominial
- Insegurança jurídica em contratos de terceirização e prestação de serviços
- O papel do síndico profissional como gestor estratégico, não apenas operacional
- A convivência em condomínio como fator de valorização imobiliária
- Tecnologia e automação como aliadas da eficiência na gestão
Esses temas não existem em silos. Uma decisão jurídica equivocada pode elevar custos. Um ambiente de convivência degradado pode desvalorizar o imóvel. Uma gestão financeira ineficiente pode pressionar a inadimplência. Tudo está conectado.
Custo Brasil: o inimigo silencioso do orçamento condominial
O conceito de “Custo Brasil” refere-se ao conjunto de entraves estruturais que encarecem a produção e a prestação de serviços no país: carga tributária elevada, burocracia, encargos trabalhistas e ineficiências logísticas. Para os condomínios, esse custo se manifesta de forma muito concreta.
Segundo especialistas do setor, os encargos trabalhistas e tributários podem representar até 40% do custo total de um colaborador contratado em regime CLT para atuar em condomínios. Isso significa que, para cada R$ 1.000,00 de salário líquido pago a um porteiro, o condomínio desembolsa consideravelmente mais.
Esse cenário pressiona diretamente a taxa condominial, que já é um ponto sensível para moradores e síndicos. A busca por alternativas que mantenham a qualidade dos serviços sem ampliar os custos é, portanto, uma pauta legítima e urgente.
Comparativo de impacto do Custo Brasil na folha de pessoal condominial:
| Item de Custo | Portaria Presencial (CLT) | Alternativas Terceirizadas |
|---|---|---|
| Salário base | Variável por região | Incluso no contrato |
| Encargos trabalhistas (FGTS, INSS etc.) | ~70% sobre o salário | Diluído no contrato |
| 13º salário e férias | Obrigatórios | Incluso no contrato |
| Substituição em folgas e férias | Custo adicional | Incluso no contrato |
| Rescisões e passivos trabalhistas | Risco integral do condomínio | Risco do contratado |
A tabela deixa claro que o modelo de gestão adotado impacta diretamente o orçamento. Não se trata de escolher o mais barato, mas o mais eficiente e seguro do ponto de vista financeiro e jurídico.
Insegurança jurídica: um risco que o síndico não pode ignorar
A insegurança jurídica é outro tema que preocupa o setor condominial. Mudanças na legislação trabalhista, interpretações divergentes sobre responsabilidade solidária em contratos de terceirização e a ausência de regulamentação clara para algumas modalidades de serviço criam um ambiente de risco para síndicos e administradoras.
Quais são os principais pontos de atenção jurídica para condomínios?
- Responsabilidade trabalhista em contratos de terceirização: o condomínio pode ser responsabilizado subsidiariamente por débitos trabalhistas de prestadores de serviço mal gerenciados
- Contratos de serviços sem clareza de escopo: prestações de serviço sem definição precisa de responsabilidades são fonte constante de litígios
- LGPD aplicada ao condomínio: a coleta e o tratamento de dados de moradores, visitantes e colaboradores exige protocolos adequados, sob pena de sanções
- Convenções desatualizadas: muitos condomínios operam com convenções elaboradas há décadas, que não contemplam realidades como câmeras de segurança, apps de acesso e automação
A orientação de especialistas jurídicos especializados em direito condominial é cada vez mais necessária. E aqui o síndico profissional se destaca: ao contrário do síndico morador que acumula funções, o profissional tem condições de buscar assessoria especializada e mitigar riscos antes que se tornem problemas.
Gestão condominial como vetor de conexões humanas
Um dos pontos mais instigantes da pauta do Enacon foi o posicionamento da gestão condominial como “vetor de conexões humanas”. Essa perspectiva vai além da eficiência operacional e toca em algo que os moradores sentem no dia a dia: a qualidade da convivência.
Um condomínio bem gerido não é apenas aquele que paga as contas em dia e mantém a estrutura conservada. É aquele onde:
- Os moradores se sentem seguros e respeitados
- Os conflitos são mediados com critério e imparcialidade
- A comunicação entre síndico, administradora e moradores é transparente e ágil
- O ambiente comum é preservado como extensão do lar de cada família
Essa dimensão humana da gestão condominial está diretamente ligada à valorização imobiliária. Estudos do setor apontam que condomínios com boa reputação de gestão e convivência podem apresentar valorização acima da média de mercado nos seus imóveis.
O papel estratégico do síndico profissional nesse cenário
O síndico profissional emerge como figura central nesse novo paradigma. Ele não é apenas o responsável por aprovar orçamentos e convocar assembleias. É o gestor que:
- Antecipa problemas antes que se tornem crises
- Negocia contratos com consciência financeira e jurídica
- Media conflitos com equilíbrio e conhecimento das normas
- Adota tecnologia para modernizar processos sem perder o lado humano da gestão
Esse perfil profissional é exatamente o que o mercado condominial contemporâneo demanda.
O que o Enacon nos ensina sobre o futuro da gestão condominial
Os debates promovidos pelo Secovi-SP no Enacon funcionam como uma lente de aumento sobre os desafios que síndicos e administradoras enfrentarão nos próximos anos. Algumas tendências já são claras:
- Profissionalização crescente: a gestão amadora perde espaço para síndicos e administradoras com formação e processos estruturados
- Pressão por redução de custos: o Custo Brasil continuará pressionando o orçamento condominial, exigindo escolhas mais inteligentes nos modelos de contratação e prestação de serviços
- Complexidade jurídica crescente: o arcabouço legal que envolve condomínios seguirá se expandindo, tornando a assessoria especializada indispensável
- Tecnologia como diferencial: condomínios que adotam soluções tecnológicas para gestão, segurança e comunicação tendem a operar com mais eficiência e menor custo por unidade
- Convivência como valor: o bem-estar coletivo deixa de ser um “extra” e passa a ser um critério de escolha para quem busca imóvel em condomínio
Conclusão
O Enacon Secovi-SP reafirma algo que gestores atentos já perceberam: a gestão condominial está em plena transformação. Custo Brasil, insegurança jurídica, convivência e tecnologia não são temas isolados. São faces de um mesmo desafio que síndicos e administradoras precisam enfrentar com preparo, informação e parceiros certos ao lado.
Condomínios bem geridos são mais seguros, mais econômicos e mais agradáveis para quem vive neles. Esse é o futuro do viver que o setor está construindo, e a gestão inteligente é o caminho mais direto para chegar lá.